Enquanto ela se arruma, o mundo
para. O mundo dela, onde só existe o homem que aguarda. Nessa casa
vazia, vazio perfeito para encontros clandestinos. Ela tenta fazer,
daquele quase nada, algo acolhedor. Quer oferecer, alimentar,
prover o aconchego que crê que ele mereça. Porque ele é o seu
homem. Só seu, durante o tempo em que estiver naquela casa. Lar sem
lembrança nem porta-retratos. Ilusão que ela finge não notar, e
durará apenas o tempo livre daquele que espera. Já que ele não é
dela e ela não é dele - embora se prepare como se fosse. Quer que o
vazio esteja lindo, sem saber que lindo seria vê-la assim,
acreditando num amor pra sempre, que termina antes do anoitecer.
Não é ingênua ou cínica, é uma mulher; e gosta desse jogo, mesmo
sabendo que, nele, nunca há vencedoras. Perdedora ou perdida
sente-se excitada. Quase aborrecida por ele estar atrasado. Lembra,
porém, de mais alguns detalhes que faltam no paraíso que quer
ofertar. Circula pela casa, toma um vinho, escreve um poema. Vai
tentar convencê-lo de quanto ela é perfeita. Ela escreve versos.
Ela é livre, mas sabe cozinhar. Escuta um barulho, e seu corpo
treme inteiro - ainda não é ele. Tenta ficar calma, mas seu
coração, agora, não bate estala, como um delicado cristal que, num
brinde, trinca. Serve-se mais uma taça de vinho. Sente uma certa
vontade de chorar. Tenta se distrair. Pode brincar um pouco
enquanto ele não chega? Decide que sim, imaginando tudo que
gostaria de fazer com ele. Algumas coisas que nunca fez, inclusive.
Mas ele demora demais, e ela prefere não mexer onde não deve. O
primeiro prazer daquela tarde deverá ser com ele, por ele. Mesmo
reconhecendo que, no quarto escuro da sua mente, faça o que quiser
com quem quiser. Ele não precisa saber disso. Nenhum homem precisa
saber que é na imaginação que a mulher esconde o tal ponto G. Ri.
Vê a hora, começa a ficar realmente irritada. Mais uma taça de
vinho e o seu coração de vidro, estalará mais forte, talvez forte
demais. Tornando-se mais intensa em sua poesia e menos preocupada
com a refeição que esfria. Que casa é essa, afinal? Decide macular
o branco daquele local asséptico. O mundo, afinal, não é apenas o
local que seu homem habita - homem que nem é tão seu. E tudo fica
melhor quando está tudo bagunçado. Então desarruma tudo.
Fernanda Young
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